Foi desde sempre o mar. Agora recordo que falavam da revolta dos ventos, de linhos, de ferros, de sereias dadas à costa.. Então é comigo que falam, sou eu que devo ir: "Para adiante! Pelo mar largo! Livrando o corpo da lição frágil da areia! Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!" O mar é só o mar, desprovido de apegos, matando-se e recuperando-se e arremetendo com bravura contra ninguém. Não precisa do destino fixo da terra, ele que ao mesmo tempo é dançarino e sua dança. Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: água de todas as possibilidades, sem fraqueza nenhuma. E assim como água fala-me. Atira-me búzios, como lembrança de sua voz e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino. E entre água e estrela estudo a solidão. E este mar visível levanta para mim uma face espantosa. E retrai-se ao dizer-me o que preciso. E é logo uma pequena concha fervilhante, nódoa líquida e instável, célula azul sumindo-se no reino de um outro mar: ah! do Mar Absoluto. CECÍLIA MEIRELES